Crônicas

Vida nova mas o mesmo eu, ou não?

Vida nova para mim mesmo teve início nesse mês de agosto. Do casulo do home office para o palco do magistério. Direto , sem escalas e muito desejado.

O silêncio perdeu seu espaço privilegiado em minha rotina. Antes, era soberano, só cedia seu lugar sagrado para as eventuais intervenções de minhas filhas. Agora precisa se contentar com as horas que sobra, como as horas mortas de Garcia Marques.

Ruim? Nem tanto. A tudo, ou quase, se acostuma. Em lugar do silêncio, meus ouvidos agora captam novas vozes, todas antes desconhecidas para mim e muito, mas muito mais jovens do que eu. É a vida.

No palco do magistério não atuam mímicos. Gestos sem palavras nada significam. É preciso representar por inteiro, corpo e voz conectados para o desempenho cênico perfeito.

É necessário criar uma imagem que atraia a atenção, modulando-a a cada apresentação, sem superar o seu discurso. Porque o roteiro do espetáculo muda e com ele a expectativa da audiência. Levo, dou, troco, misturo, gero. Malabarista sem rede de proteção ou cordas de segurança, voando no espaço aos olhos do público. Me reconhecerei após experiência tão intensa? Provavelmente, sim. Não sou mutante de hoje. Ninguém é.

Durante a encenação, as palavras ganharão mais força à medida que escorrerem da língua formando ideias, propondo desafios, inserindo dúvidas, desatando nós, sugerindo caminhos. Porque não há quarta parede, ator e público se mesclam, trocando de papéis momentaneamente à conveniência do espetáculo.

Ao final, as cortinas se fecharão e todos irão embora.

Mas muito longe de continuarem sendo os mesmos. Serão todos outros. Seremos todos outros. Seres metamorfoseados, refletindo o embate entre as opiniões e argumentos proferidos ao longo do espetáculo.

Híbridos, por fim. A cada subida ao palco, a cada cerrar de cortinas.

Subo híbrido, desço híbrido. Por isso vivo.

Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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